Após anos de torcida pelo Brasil, haitianos em SP sonham com vitória histórica do Haiti na Copa: 'A honra vai cantar mais alto'

  • 19/06/2026
(Foto: Reprodução)
Fedo Baccourt é hatiano, mora em São Paulo há 13 anos e fundou a União Social dos Imigrantes Haitianos TV Globo A classificação do Haiti para a Copa do Mundo pela primeira vez desde 1974 tem sido comemorada por haitianos em diferentes partes do mundo. No Brasil, onde a comunidade do país caribenho está entre as mais numerosas da imigração internacional, a conquista despertou orgulho e emoção entre os imigrantes. O retorno ao torneio após 52 anos ganha um significado ainda maior porque a seleção caribenha terá pela frente justamente o Brasil, equipe que por décadas foi uma das mais admiradas pelos torcedores haitianos. Por muitos anos, os haitianos se reuniram diante de televisões e rádios para torcer pela seleção brasileira em Copas do Mundo. Neste ano, porém, a situação é diferente. Com o Haiti no Mundial, a prioridade passou a ser a seleção nacional. Fedo Baccourt, pesquisador da USP, empresário, coordenador e fundador da União Social dos Imigrantes Haitianos, organização criada em setembro de 2014 na capital paulista, é um apaixonado por futebol. Morando em São Paulo há 13 anos, ele diz que a torcida dos haitianos estará voltada primeiro para o próprio país. “A torcida primeiro será para o Haiti, lógico. Se o Haiti não está jogando, a gente apoia outros times, e o Brasil, no caso, tem uma torcida grande no país. Mas com o Haiti jogando não tem como não torcer”, afirmou. Haitianos comemoram classificação da seleção em novembro de 2025 REUTERS/Egeder Pq Fildor Baccourt conta que assistirá ao jogo entre Brasil e Haiti na Missão Paz São Paulo, instituição filantrópica de apoio e acolhimento a imigrantes e refugiados, ao lado da família. Apesar de dizer que nunca torceu para o Brasil e que sua preferência sempre foi a Argentina, influenciado por Maradona, ele conta que a esposa é “brasileira de coração” e que as filhas nasceram no Brasil. Por isso, elas sempre torceram pela seleção brasileira. Mesmo assim, segundo ele, não há dúvidas sobre quem receberá o apoio da família no confronto. "No jogo de sexta iremos torcer pelo Haiti. Nós somos ligados à nossa bandeira e história. Espero que os jogadores joguem pela bandeira. A honra vai cantar mais alto do que o amor”, disse. Segundo a agência internacional AP, muitos haitianos que tradicionalmente torciam pelo Brasil deixaram a seleção brasileira em segundo plano após a classificação histórica dos Grenadiers, como a seleção haitiana é chamada. Em Porto Príncipe, camisas da equipe nacional passaram a ocupar as ruas, e torcedores afirmam que vão apoiar o Haiti mesmo diante de uma das seleções mais fortes do mundo. Baccourt reconhece a diferença técnica entre as equipes, mas considera que apenas a participação no Mundial já representa uma conquista histórica. “Eu queria muito que o Haiti pudesse colocar 10 a 0 no Brasil. Eu espero que o Haiti ganhe. Se o Brasil ganhar, tudo bem. Mas não podemos negar que é uma grande vitória o Haiti participar da Copa. Sabemos que o time não tem a altura do Brasil, e de outros times, como França, Alemanha. Mas será uma honra enorme se fizermos essa virada". Um pedestre caminha ao lado de bandeiras e camisas de futebol à venda em uma rua de Porto Príncipe, Haiti AP Photo/Odelyn Joseph Para ele, a confiança dos haitianos está ligada à própria trajetória do país. “A gente acredita na luta e força dos haitianos. Fomos o primeiro país livre da escravidão. Napoleão Bonaparte foi a maior força armada. E ninguém imaginava que o Haiti derrotaria o Napoleão. A gente acredita com esse espírito.” Apesar do desejo de uma vitória histórica, Baccourt mantém os pés no chão. “A gente sabe que o Brasil é melhor. Um monte de jogador grande, que joga na Europa, mas não custa acreditar.” Ainda assim, para muitos haitianos, o simples fato de ver a seleção nacional de volta à Copa do Mundo depois de cinco décadas já é motivo de celebração e orgulho. Entre os principais grupos da imigração no Brasil Haitianos olham um mapa do Brasil enquanto esperam o transporte para outras cidades brasileiras em busca de trabalho Odair Leal/Reuters Os haitianos seguem entre as principais nacionalidades da imigração no Brasil, segundo o relatório Dados Consolidados da Imigração no Brasil 2024, do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra). Em relação aos vistos concedidos, o relatório informa que os haitianos continuam entre as principais nacionalidades atendidas pelo governo brasileiro, embora com retração no último ano. Segundo o Gráfico 1 do documento, foram cerca de 8 mil vistos em 2024, ante aproximadamente 9 mil em 2023 e cerca de 4 mil em 2022. O relatório também destaca queda de 11,9% no número de vistos concedidos a haitianos na comparação com 2023. No caso dos haitianos, predominam os vistos de reunião familiar e de acolhida humanitária. Nos registros de residência, o cenário é de estabilidade. De acordo com o relatório, os haitianos parecem ter se mantido em um patamar de pouco mais de 6 mil registros por ano desde 2022. O estudo indica essa permanência em torno desse nível ao longo de 2022, 2023 e 2024. O documento aponta que, em 2024, os venezuelanos continuaram na liderança entre as nacionalidades com mais regularizações, seguidos por bolivianos e argentinos, enquanto os haitianos permanecem entre os principais grupos, mas sem crescimento expressivo recente. O relatório também traz um dado relevante sobre os processos de refúgio. Embora os haitianos não estejam entre as nacionalidades com maior número de novas solicitações em 2024, eles aparecem com peso nas extinções de processos. Jovens atletas da Academia de Futebol Perles Noires, projeto da ONG Viva Rio no Haiti Paula Lago/g1 Segundo o documento, “boa parte das extinções está associada aos haitianos que já haviam obtido residência, se naturalizando ou se casando com brasileira(o)”. Em 2024, as decisões sobre pedidos de refúgio no Brasil tiveram queda de 51,0% em relação a 2023, após uma alta de 235,7% na comparação entre 2023 e 2022. No mercado de trabalho formal, os haitianos continuam com presença importante. O relatório diz que eles foram a segunda nacionalidade em movimentação no mercado formal em 2024, mas ficaram em quarto lugar na geração de postos de trabalho, atrás de venezuelanos, cubanos e argentinos. O ano de 2024 registrou, segundo o documento, o maior volume da série histórica de empregos criados para imigrantes desde 2010, com mais de 70 mil postos de trabalho no total. 38 mil haitianos cadastrados na rede municipal de saúde Na capital paulista, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) informou que, até 2025, a cidade tinha 38.070 haitianos cadastrados nos serviços de saúde. Entre as nacionalidades mais atendidas na rede municipal, o Haiti aparece em 4º lugar, atrás de: Bolívia: 271.598 Angola: 82.728 Venezuela: 60.812 República do Haiti: 38.070 Paraguai: 27.843 Uganda: 25.795 Portugal: 24.975 Peru: 18.646 Nigéria: 10.924 Argentina: 10.764 Cidade de Croix-des-Bouquets, no Haiti Paula Lago/g1 Imigrantes haitianos em SP revivem o sonho da Copa do Mundo

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/06/19/apos-anos-de-torcida-pelo-brasil-haitianos-em-sp-sonham-com-vitoria-historica-do-haiti-na-copa-a-honra-vai-cantar-mais-alto.ghtml


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