Escravidão e apoio do império: por que perdedores de guerra civil nos EUA escolheram Brasil como destino, segundo pesquisa

  • 29/06/2026
(Foto: Reprodução)
Por que perdedores de guerra civil nos EUA escolheram Brasil como destino Confederados derrotados na Guerra Civil dos Estados Unidos escolheram o Brasil como destino devido à escravidão até então permitida no país sul-americano. Além disso, a oferta de terras e os incentivos do governo brasileiro eram vistos como atrativos. A conclusão faz parte das pesquisas do professor Célio Antônio Alcântara, que desde a década de 1990 estuda a imigração confederada com base em documentos históricos de cartórios de Santa Bárbara d’Oeste (SP). Atualmente, ele é docente da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Neste ano, a celebração dos descendentes de imigrantes norte-americanos na cidade do interior de São Paulo retornará após sete anos. Marcada para 4 de julho, a festa será realizada sob novas regras, que proíbem o uso de símbolos de apologia ao racismo, incluindo a bandeira confederada. 📲 Siga o g1 Piracicaba no Instagram Junto com Cuba, o país estava entre os últimos do mundo a manter a escravidão legalizada, o que o tornava uma alternativa para os confederados preservarem o modelo econômico e social baseado nas grandes plantações de algodão e no trabalho compulsório — entenda abaixo. Segundo o pesquisador, inventários, escrituras e processos judiciais revelam que muitos dos confederados que migraram eram "ex-senhores de escravos". A vinda para o Brasil tinha como objetivo preservar a posição social e econômica. Ao g1, a Federação dos Descendentes de Americanos (FDA) explicou que não reconhece a versão de que os confederados tenham vindo para o Brasil em razão da escravidão. A federação acredita que a vinda foi incentivada pela produção de algodão e pelo fato de os imigrantes terem encontrado no Brasil uma oportunidade de recomeçar. A FDA também enfatiza que essa história tem cerca de 170 anos, repudia qualquer forma de discriminação ou racismo e destaca que atuação da entidade é restrita ao cuidado com o Cemitério dos Americanos, criado por preconceito religioso à época. Descendentes de americanos celebram festa confederada em Santa Bárbara d'Oeste Thomaz Fernandes/g1 Destino ideal e cartas perguntando o 'preço dos escravos' O pesquisador apontou que a recusa em aceitar a "igualdade racial" imposta no país de origem após o conflito foi determinante para a fuga dos ex-combatentes. 🔎 Após a derrota nos Estados Unidos, segunda a Unicamp, estima-se que cerca de 3.691 norte- americanos desembarcaram no porto do Rio de Janeiro (RJ) entre 1864 e 1874. Deles, aproximadamente 800 deles se estabeleceram em Santa Bárbara d’Oeste. Cartas enviadas por sulistas a consulados brasileiros antes da imigração mostravam uma preocupação específica com o preço dos escravos, a legalidade da escravidão e até a possibilidade de trazer antigos escravizados libertos nos Estados Unidos. "A escravidão era legal [no Brasil] e havia essa disponibilidade de terras, o que, obviamente, era uma condição para a reprodução das condições pré-guerra civil [...] O Brasil, enquanto destino, a gente pode colocar nesses termos: a escravidão é um fator fundamental a se considerar", explicou Célio. Pesquisas em cartórios de Campinas (SP) e Santa Bárbara d’Oeste identificaram entre 180 e 200 escravizados transacionados por americanos. Segundo a Unicamp, eles eram responsáveis por cerca de um terço das compras de escravos registradas na cidade entre 1866 e 1887. Violência e extremismo Segundo Alcântara, as obras memorialistas e as narrativas de descendentes dos americanos tendem a minimizar a escravidão, alegando que os imigrantes eram "bons senhores" e possuíam uma relação de paternalismo. No entanto, o pesquisador afirma que documentos desmentem essa suposta harmonia e revelam uma estrutura rígida focada em manter o antigo status social dos EUA. "Parte da historiografia memorialista vai negar o papel da escravidão dentro da comunidade [...] Ela é, de certa forma, reduzida. Mas quando se observa a aquisição tanto de terras quanto de escravizados no Brasil, a gente percebe que há ali para um conjunto, principalmente para os líderes, há um conjunto ali de condições acima da média local", explicou. Recepção brasileira Descendentes de americanos com roupas típicas de imigrante em Santa Bárbara d'Oeste (SP). Divulgação/Fraternidade Descendência Americana O Brasil se tornou o destino ideal ao oferecer terras para o trabalho compulsório, recebendo o apoio de políticos entusiastas, como Tavares Bastos, e até visitas pessoais do Imperador Dom Pedro II aos recém-chegados no Rio de Janeiro. No interior paulista, a comitiva chegou a ser recebida com banquetes, foguetes e bandas tocando o hino do Sul dos EUA em cidades como Araraquara (SP) e Botucatu (SP). O levantamento, no entanto, aponta tensões e características específicas dessa integração inicial: Frustração trabalhista: fazendeiros brasileiros esperavam que os americanos servissem como mão de obra ("braços para a lavoura"), mas os estrangeiros vieram para ser senhores de terras, e não trabalhadores subalternos; Tensões religiosas: houve resistências pontuais da Igreja Católica, como a do vigário de Santa Bárbara, que tentou desencorajar a venda de propriedades aos imigrantes por serem protestantes. Incentivo do Império: o governo brasileiro apoiou a vinda dos americanos sob uma perspectiva eugênica, preferindo o "elemento branco anglo-saxão" em detrimento de outras migrações; "A imigração confederada vai ser entendida como bem-vinda em razão desse aspecto, ou em razão de uma determinada perspectiva eugenista racial [...] Esses imigrantes, dessa perspectiva imperial, seriam bem-vindos em razão desse critério eugênico-racial", conclui o pesquisador. Cemitérios dos imigrantes norte-americanos com bandeiras dos confederados, em Santa Bárbara d'Oeste (SP) Thomaz Fernandes/g1 VÍDEOS: Tudo sobre Piracicaba e região Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Piracicaba.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/piracicaba-regiao/noticia/2026/06/29/escravidao-e-apoio-do-imperio-por-que-perdedores-de-guerra-civil-nos-eua-escolheram-brasil-como-destino-segundo-pesquisa.ghtml


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