Estudo identifica 1,5 mil pepinos-do-mar em carga ilegal apreendida em aeroporto de SP
30/07/2026
(Foto: Reprodução) Estudo identifica 1,5 mil pepinos-do-mar em carga ilegal apreendida em aeroporto de SP
Fabio Porto-Foresti
Uma análise genética realizada por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) identificou duas espécies de pepinos-do-mar brasileiros em cargas apreendidas no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). O caso revela o comércio ilegal desses animais e abre caminho para o uso da genética como ferramenta de fiscalização.
📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram
O estudo identificou exemplares das espécies Holothuria grisea e Isostichopus badionotus, animais que, apesar de pouco conhecidos pelo público, exercem um papel fundamental na manutenção dos ecossistemas marinhos.
Os cientistas analisaram três apreensões feitas pelo Ibama em 2023: duas malas de passageiros que embarcariam para a China e uma caixa destinada à Itália. Como os animais estavam secos e processados, a identificação por características físicas era praticamente impossível. A solução foi recorrer ao chamado DNA barcoding, técnica que funciona como um "código de barras" molecular para identificar espécies a partir de pequenos fragmentos de DNA.
"Durante o estudo percebemos que não havia nenhuma sequência genética dessa espécie (Holothuria grisea) disponível em bancos públicos. Tivemos que coletar exemplares em Ubatuba para construir essa referência e só então confirmar a identidade dos animais apreendidos", explica a pesquisadora Auany Camila Fantinelli.
A técnica utilizada identifica com precisão a espécie, mas ainda não permite determinar exatamente de qual praia ou município os animais foram retirados. Isso ocorre porque o marcador genético empregado foi desenvolvido apenas para reconhecer espécies, e não diferenças entre populações de uma mesma espécie.
Comércio ilegal de pepinos-do-mar brasileiros preocupa pesquisadores e acende alerta para conservação
Fabio Porto-Foresti
Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1:
MISTÉRIO: Animal conhecido por apenas 9 exemplares pode ter desaparecido antes mesmo de ser estudado
FLAGRANTE: Irara com mutação rara é registrada durante monitoramento de fauna no RJ
SERÁ? Cigarras são iguais no Japão? Fotógrafa brasileira registra espécies do 'outro lado do mundo'
Apesar dessa limitação, os pesquisadores consideram extremamente provável que os exemplares tenham sido capturados na costa brasileira. As duas espécies ocorrem naturalmente ao longo do litoral do país e não existem registros de produção comercial desses animais no Brasil.
O volume apreendido chamou a atenção da equipe: as três cargas analisadas continham cerca de 1.500 pepinos-do-mar, considerando aproximadamente 500 indivíduos por mala ou caixa.
"Isso representa apenas o que foi apreendido. É provável que exista um volume muito maior passando despercebido", alerta Auany.
Pesquisadores usam DNA para identificar pepinos-do-mar brasileiros em carga ilegal apreendida pelo Ibama
Fabio Porto-Foresti
Por que o interesse em pepinos-do-mar?
Os pepinos-do-mar exercem um papel indispensável na manutenção da saúde dos ambientes costeiros. Eles se alimentam de sedimentos ricos em matéria orgânica, reciclam nutrientes, oxigenam o fundo marinho e ajudam a manter o equilíbrio dos ecossistemas bentônicos, onde vivem diversos organismos que habitam o fundo dos ambientes aquáticos.
Quando ingerem o sedimento, esses animais processam a matéria orgânica e devolvem ao ambiente nutrientes já mineralizados, favorecendo a circulação de oxigênio e criando condições para o desenvolvimento de microrganismos, vermes, crustáceos e outras espécies que dependem desse habitat.
"Quando uma população de pepinos-do-mar é removida de forma intensiva, esse serviço ecológico deixa de acontecer. O sedimento fica menos oxigenado, há acúmulo de matéria orgânica e toda a biodiversidade que depende desse ambiente pode ser afetada", explica Auany.
Segundo a pesquisadora, os impactos vão muito além da redução do número de indivíduos.
DNA desvenda origem de pepinos-do-mar apreendidos em esquema de comércio ilegal
flatwaterchris/iNaturalist - Isostichopus badionotus
"O que está em jogo não é apenas a sobrevivência de duas espécies, mas a integridade de ecossistemas inteiros que dependem do trabalho silencioso desses animais para se manterem equilibrados"
A demanda internacional por pepinos-do-mar é impulsionada principalmente pelo mercado asiático, onde o produto seco é considerado uma iguaria culinária e também é utilizado na medicina tradicional chinesa, principalmente. O alto valor comercial torna a captura ilegal economicamente atrativa e favorece a exploração de populações naturais.
Abundantes, mas sem monitoramento
As duas espécies identificadas no estudo são classificadas atualmente como "Menos Preocupantes" pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). No entanto, os cientistas ressaltam que essa classificação não significa ausência de risco.
A avaliação da Holothuria grisea, por exemplo, não é atualizada desde 2010. Além disso, cerca de 65% das espécies de pepinos-do-mar avaliadas pela IUCN são classificadas como "Dados Insuficientes", evidenciando a falta de informações sobre esse grupo de animais.
Veja o que é destaque no g1:
Agora no g1
No Brasil, praticamente não existe monitoramento contínuo das populações, o que dificulta avaliar se elas permanecem estáveis ou vêm sofrendo reduções ao longo dos anos.
"Hoje não sabemos quantos indivíduos existem, como essas populações estão distribuídas nem se estão diminuindo ou se recuperando. Sem essas informações é impossível estabelecer um ponto de partida para avaliar o impacto da exploração", diz Auany.
Outro fator de preocupação é a própria biologia desses organismos. Os Pepinos-do-mar apresentam crescimento lento, baixa mobilidade e recuperação populacional demorada, características que aumentam sua vulnerabilidade diante da captura contínua.
Mesmo que ainda não existam levantamentos quantitativos que mensurem o impacto da coleta ilegal no litoral paulista, os pesquisadores que acompanham essas populações há décadas já observam sinais de redução em algumas regiões.
Segundo Ricardo Utsunomia, um dos autores do estudo, monitoramentos no litoral norte de São Paulo há cerca de 30 anos relatam uma diminuição perceptível na ocorrência desses animais em áreas como Ubatuba, indicando que a exploração pode estar produzindo efeitos antes mesmo de existirem levantamentos oficiais capazes de medir sua dimensão.
Desafios na fiscalização
Pesquisadores da Unesp analisaram o DNA de pepinos em caixas irregulares apreendidas pelo Ibama no Aeroporto de Guarulhos.
siguisira/iNaturalist - Holothuria grisea
Os autores do estudo defendem que a genética pode se tornar uma importante aliada das autoridades ambientais. Como o DNA permite identificar espécies mesmo quando os animais chegam secos ou processados, a técnica pode ajudar a comprovar a origem do material apreendido e fortalecer investigações sobre o comércio ilegal.
No entanto, eles ressaltam que a ferramenta, sozinha, não é suficiente para conter o problema. A ampliação dos bancos de dados genéticos, o monitoramento das populações e o fortalecimento da fiscalização são apontados como medidas fundamentais para combater o tráfico desses animais.
Outro desafio é o próprio destino das cargas ilegais. Das três apreensões analisadas no estudo, duas tinham como destino a China e uma seguiria para a Itália. Segundo os pesquisadores, porém, esses não são os únicos mercados consumidores.
"Nossos registros mostram que a China é o principal destino dessas cargas, mas já identificamos casos de envios para outros países, como a Inglaterra", afirma Ricardo.
O alto valor comercial dos pepinos-do-mar no mercado internacional estimula a captura ilegal. No Brasil, como não existe produção aquícola capaz de abastecer esse comércio, os pesquisadores acreditam que os animais apreendidos realmente tenham sido retirados diretamente da natureza.
Além disso, a extensão do litoral brasileiro e a dificuldade de monitoramento favorecem a continuidade da atividade clandestina. De acordo os autores, as três cargas analisadas representam apenas uma pequena parcela do comércio ilegal que consegue ser interceptada pelos órgãos de fiscalização.
Outro ponto de preocupação, de acordo com os cientistas, é a legislação brasileira, pois, crimes contra a fauna costumam resultar em penas relativamente brandas, o que, na avaliação dos pesquisadores, reduz o efeito dissuasório diante do lucro obtido com o comércio ilegal.
Como exemplo, os pesquisadores citam um caso registrado em Ubatuba (SP), em outubro de 2025, quando um homem foi preso transportando quase 60 quilos de pepinos-do-mar. Segundo as informações da época, estima-se que o quilo do produto pode alcançar cerca de 1.500 euros no mercado asiático, valor muito superior às sanções aplicadas no caso. O homem foi multado em R$ 6.720 e liberado após pagar fiança de R$ 2 mil.
"Esse caso ilustra bem como a combinação entre fiscalização limitada, ausência de regulamentação e punições relativamente brandas pode favorecer a continuidade desse comércio ilegal", avalia Ricardo.
Iniciativas de pesquisa voltadas ao cultivo de pepinos-do-mar no Brasil ainda são experimentais e estão longe de produzir em escala suficiente para atender ao mercado. Por isso, os pesquisadores consideram que os animais apreendidos são provenientes da captura extrativista.
Para a equipe, impedir que produtos obtidos ilegalmente cheguem ao mercado dependerá da integração entre fiscalização, pesquisas científicas focadas nas espécies e investimentos em ferramentas capazes de rastrear os pepinos-do-mar.
Os pesquisadores finalizam reforçando que ainda faltam informações básicas sobre a distribuição das espécies, o tamanho de suas populações, suas taxas de reprodução e crescimento, além da forma como respondem à pressão da captura ilegal e às mudanças ambientais.
Essas lacunas dificultam tanto a avaliação do estado de conservação das espécies quanto a criação de políticas públicas voltadas ao seu manejo.
*Sob supervisão de Rodrigo Peronti.
VÍDEOS: Destaques Terra da Gente
Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente