O que a recuperação de atletas de elite revela sobre dor, reabilitação e saúde mental

  • 14/07/2026
(Foto: Reprodução)
Ismael Kone, do Canadá, aplaude torcedores enquanto é retirado de maca após sofrer lesão REUTERS/Albert Gea Uma lesão grave costuma ser descrita como um problema físico, mas seus efeitos raramente ficam restritos ao corpo. Dor persistente, afastamento da rotina, perda de autonomia e a incerteza sobre o futuro também fazem parte da recuperação — seja para um atleta de elite, alguém que passou por uma cirurgia ou uma pessoa que convive com uma doença crônica. É por enfrentarem esse processo sob os holofotes que atletas lesionados acabam oferecendo lições que extrapolam o esporte. Psicólogos e especialistas em reabilitação afirmam que voltar a se movimentar é apenas uma parte da recuperação. Reconstruir a confiança, aceitar novos limites e redefinir objetivos costuma ser tão importante quanto recuperar a força muscular. "O esporte sempre imitou a vida", resume Ross Flowers, psicólogo esportivo e de desempenho. Segundo ele, desafios, perdas e mudanças fazem parte de qualquer trajetória, e aprender a enfrentá-los é uma habilidade que vai muito além das competições. O QUE É UMA LESÃO DE GRAU 2? Desacelerar também faz parte da recuperação O imaginário esportivo costuma valorizar histórias de atletas que competem lesionados ou suportam dores extremas para alcançar grandes resultados. Mas especialistas alertam que existe uma diferença entre lidar com o desconforto esperado do treinamento e ignorar sinais de que o organismo precisa parar. Treinos intensos provocam adaptações no corpo justamente porque exigem esforço próximo ao limite. O problema surge quando a dor deixa de ser passageira e passa a indicar que tecidos, músculos ou articulações estão sendo sobrecarregados. Liv Paxton, de 28 anos, conhece bem essa diferença. Ex-corredora universitária, ela acumulou episódios de canelite, distensões musculares e uma ruptura parcial do tendão de Aquiles antes de precisar passar por cirurgia. Ela conta que, durante a faculdade, acreditava ser praticamente invencível. Hoje, depois da reabilitação, diz que aprendeu a dar mais atenção aos sinais do próprio corpo e passou a priorizar descanso, alimentação adequada e sono — hábitos que antes ficavam em segundo plano. Segundo Lisa Miller, professora de Ciências da Saúde e do Esporte, reconhecer os próprios limites nem sempre é simples. Muitas vezes, exige um processo de tentativa e erro. Ela observa que esse debate ganhou força nos últimos anos, à medida que atletas passaram a falar mais abertamente sobre exaustão física e mental, mostrando que interromper uma atividade também pode ser uma decisão de cuidado, e não de fraqueza. Esse aprendizado vale para muito além do esporte. Uma lesão pode surgir após uma queda, uma cirurgia ou meses de sobrecarga no trabalho, como acontece com pessoas que desenvolvem dores crônicas nas costas ou nos joelhos. Em comum, está a necessidade de interromper a rotina e reorganizar a recuperação. Ismael Kone, do Canadá, está no chão após sofrer a lesão REUTERS/Lee Smith A perda nem sempre é apenas física Mesmo quando a cirurgia é bem-sucedida ou o osso consolida, a recuperação costuma envolver outro desafio: lidar com aquilo que mudou. Especialistas explicam que muitas pessoas passam por um processo semelhante ao luto. Elas podem sentir tristeza pela perda da antiga rotina, das metas interrompidas ou da independência temporariamente reduzida. Esse impacto tende a ser ainda maior quando a identidade está profundamente ligada ao desempenho físico ou à profissão. Foi o que aconteceu com Kyle Arrington, ex-jogador da NFL e campeão do Super Bowl. Após sofrer uma concussão grave, ele precisou encerrar a carreira de forma precoce. Acostumado a uma rotina construída ao longo de quase duas décadas, Arrington relata que viu toda a estrutura da sua vida desaparecer em pouco tempo. Segundo ele, o apoio da família e dos amigos foi decisivo para enfrentar esse período e encontrar novos caminhos. Hoje, dedica-se a uma fundação voltada ao desenvolvimento de jovens. Flowers afirma que uma rede de apoio faz diferença porque ajuda a manter uma perspectiva mais equilibrada durante decisões difíceis, além de oferecer incentivo em um momento em que inseguranças costumam aumentar. Arte mostra lesão de Lucas Paquetá Jornal Nacional/ Reprodução Nem sempre significa voltar a ser quem você era Um dos maiores obstáculos da reabilitação pode surgir quando a expectativa é simplesmente voltar exatamente ao ponto em que tudo começou. Para os psicólogos do esporte, a recuperação costuma avançar quando a pessoa deixa de perseguir o passado e passa a construir uma nova versão de si mesma. A esquiadora americana Jamie MoCrazy viveu essa transformação depois de sofrer um traumatismo craniano que a deixou em coma aos 22 anos. Ela chegou à conclusão de que não faria sentido retornar às competições se não pudesse competir no mesmo nível de antes. Em vez disso, encontrou outra forma de manter o vínculo com aquilo que mais gostava: hoje atua como palestrante motivacional e diz sentir no palco uma emoção semelhante à que experimentava antes das competições. A ex-boxeadora profissional Patricia Alcivar também precisou redirecionar sua trajetória depois de uma sequência de lesões. Atualmente, participa de maratonas e faz montanhismo para continuar desafiando o próprio corpo. Ela afirma que não se arrepende da carreira no boxe porque o esporte lhe ensinou resiliência, qualidade que continua guiando sua vida mesmo fora dos ringues. A recuperação pode transformar relação com corpo Especialistas destacam que a ideia de sucesso durante a reabilitação nem sempre deve ser medida apenas pelo retorno ao desempenho anterior. Em muitos casos, o processo leva as pessoas a desenvolver uma relação mais equilibrada com o próprio corpo, aprendendo a reconhecer limites, respeitar o tempo de recuperação e estabelecer objetivos diferentes daqueles que existiam antes da lesão. Isso não significa abandonar a esperança de melhora, mas compreender que recuperar a qualidade de vida pode envolver novos hábitos, novas prioridades e, às vezes, uma nova identidade. A experiência dos atletas mostra que, embora o caminho raramente seja linear, a recuperação não depende apenas da cicatrização de músculos, ossos ou tendões. Ela também passa pela capacidade de adaptar expectativas e encontrar novos significados quando o corpo deixa claro que seguir em frente pode exigir uma rota diferente da planejada.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/07/14/o-que-a-recuperacao-de-atletas-de-elite-revela-sobre-dor-reabilitacao-e-saude-mental.ghtml


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