Policial exigiu drogas e fuzil para não prender homem no interior de SP, revela MP: 'Não fuja do compromisso'
30/07/2026
(Foto: Reprodução) Policial exigiu drogas e fuzil como condição para não prender homem em Piracicaba
Um policial exigiu drogas e um fuzil como condição para não prender um homem durante uma abordagem em Piracicaba (SP) em janeiro de 2026. É o que revela o relatório do Ministério Público (MP) que traz suspeitas de extorsões, simulação de flagrantes e fragilidades de provas durante ações de policiais militares.
O documento foi elaborado a partir do aumento de relatos desses tipos de casos e também do número de mortes decorrentes de intervenção policial (veja abaixo).
Em um desses relatos, um homem conta que foi abordado depois de retornar de um pronto-socorro com a esposa e o filho.
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Durante a abordagem, diz relatório, o policial teria apontado a arma e dito que o mataria na frente de seus familiares, exigindo que ele entregasse o local onde estaria as drogas e que se não fizesse, ele apanharia e, juntamente com a esposa, seria preso.
O homem teria dito que não teria drogas. Então, o policial teria exigido a delação de um traficante e que, se a polícia o encontrasse com drogas, o homem abordado seria solto. Mais uma vez, o homem teria dito que não sabia informar.
Por fim, os policiais disseram que a condição para ele ser solto naquele momento era a de entregar dez quilos de droga e uma arma de fogo, o que foi aceito pelo homem.
Prints de conversas obtidos pelo Ministério Público detalham a conversa entre o homem e um dos policiais nos dias seguintes.
Os trechos apontam o que seria uma cobrança do agente e indicam que ele não queria mais a maconha (a "verde"), mas cocaína (a "branca"), assim como o fuzil. Veja abaixo trechos da fala do policial:
"Não esquece seu compromisso mais tarde!"
"Não é verde, é da branca."
"Não fuja do seu compromisso."
"Faz o seguinte, vamos deixar a água passar por baixo da ponte, se acha que é muito para você, mas na hora de bater no peito, pensei que estava na ideia com home."
"Dia 20 alguém vai te chamar. Esteja com tudo na mão."
Diante disso, a Promotoria encaminhou ofício à Corregedoria da Polícia Militar do Estado de São Paulo para eventuais providências.
Em ofício encaminhado ao MP, a Corregedoria informou que houve cumprimento de mandados de busca e apreensão, em 11 de fevereiro deste ano, contra dez policiais militares.
Policial exigiu drogas e fuzil como condição para não prender homem em Piracicaba
Reprodução
Aumento da letalidade policial
De acordo com o MP, o relatório foi elaborado a partir do aumento desses episódios, principalmente em 2025. Com isso, a Promotoria avaliou a dinâmica de casos relacionados a esses contextos e elaborou recomendações para diferentes órgãos.
A análise constatou que a taxa de letalidade policial em Piracicaba era menor do que a do estado em 2024, mas passou a estar acima em 2025. Especialistas ouvidos pelo g1 no início de 2026 consideraram "fora da normalidade" esse crescimento.
Ao verificar casos envolvendo mortes, o Ministério Público afirmou que provas evidenciaram "como a combinação entre ausência de registro objetivo, demora documental e manejo indevido de vestígios produz um cenário de fragilidade probatória".
No relatório, são apontadas divergências entre depoimentos dos agentes com as provas obtidas durantes investigações.
Ainda segundo o MP, documentos vinculados a prisões em flagrante revelaram padrões com chance de fragilizar provas judiciais. Entre esses padrões, destacam-se:
Indícios consistentes de irregularidade, em ao menos um dos casos, na entrada da polícia na casa de alguém;
A recorrência de alegações de "plantio/forjamento" de objetos como armas e drogas;
A crescente dependência de prova audiovisual, como câmeras de terceiros e registros externos;
A presença de imputações graves com indicação de apuração da Corregedoria.
Viatura da Polícia Militar do Estado de São Paulo
Divulgação/PM
Recomendações
O relatório do MP foi encaminhado para os seguintes órgãos:
Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo
Comando-Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo
Corregedoria-Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo
Comando de Policiamento do Interior (CPI-9);
10º Batalhão de Polícia Militar do Interior
Delegacia Seccional de Polícia de Piracicaba (Polícia Civil);
Polícia Técnico-Científica – Instituto de Criminalística/IML;
Direção do Foro da Comarca de Piracicaba
Secretaria Executiva da Promotoria de Justiça Militar.
O documento indica a importância da implementação de câmeras corporais pela Polícia Militar em Piracicaba e lista uma série de outras recomendações a serem adotadas pelos órgãos, como:
Registro cronológico padronizado dos horários relevantes relacionados aos casos
Reforço expresso do dever de preservação do local e de não alteração do estado de coisas até a chegada da autoridade policial e da perícia;
Vedação de circulação não essencial em cena sensível, com identificação mínima dos agentes que ingressaram no local antes da perícia;
Rotina de preservação e requisição célere de mídias externas pela Policia Civil (câmeras particulares/comerciais/vizinhança), com registro formal da diligência;
Auditoria periódica, em ocorrências selecionadas, para aferição de aderência aos protocolos.
O que dizem os responsáveis
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que acompanha permanentemente os indicadores relacionados às mortes decorrentes de intervenção policial e analisa o contexto de cada ocorrência e a legalidade da atuação policial.
Sobre os dados de Piracicaba, a secretaria disse que encaminhou ao Ministério Público um estudo técnico sobre o cenário das ocorrências de oposição à intervenção policial, o recrudescimento da ação criminosa na região e as medidas adotadas pela Polícia Militar para análise das condutas dos agentes.
A pasta ainda ressaltou que mantém os dados em transparência ativa e responde regularmente às solicitações dos órgãos de controle, informando as circunstâncias das ocorrências, as medidas de preservação da vida adotadas, os procedimentos instaurados e as comunicações às autoridades competentes.
"Além disso, a PM mantém o Sistema de Supervisão e Padronização Operacional (SISUPA), responsável pela elaboração, revisão, treinamento e supervisão dos Procedimentos Operacionais Padrão (POPs), com foco na segurança, na padronização e na qualidade da atividade policial", complementou.
O g1 também pediu um posicionamento à Polícia Militar, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
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