Quadrilha que desviou R$ 45 milhões de clientes da Caixa recebeu informações vazadas da Justiça
02/08/2026
(Foto: Reprodução) A operação contra criminosos que recebiam informações vazadas direto da Justiça
Uma quadrilha especializada em fraudes bancárias desviou cerca de R$ 45 milhões de clientes da Caixa Econômica Federal e teve acesso antecipado a um documento sigiloso da Justiça Federal que autorizava uma operação contra o grupo.
Quase um mês antes de a Polícia Federal bater à porta dos principais investigados, eles já apagavam arquivos, escondiam patrimônio e esperavam a chegada dos agentes.
A quadrilha tentou eliminar provas dos crimes, mas deixou para trás justamente a pista que permitiu à Polícia Federal rastrear o vazamento do documento.
Como a quadrilha aplicava fraudes
A investigação tinha começado em 2025 a partir de informações de fraudes contra clientes da Caixa Econômica Federal. Os criminosos invadiam contas e desviavam o dinheiro das vítimas, entre elas, beneficiários do FGTS e do auxílio emergencial. O esquema envolveu ao menos R$ 45 milhões.
➡️ A Polícia Federal afirma que pessoas foram obrigadas a deixar de comprar remédios e comida. Do outro lado, o dinheiro desviado sustentava o alto padrão de vida dos investigados.
O levantamento da PF encontrou dois núcleos de atuação da quadrilha. Em São Paulo, o casal Matheus Casado Natário e Isabely Alves de Sousa coordenava as fraudes e obtinha acesso às contas das vítimas.
Eles criaram uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal, para tentar evitar a recuperação de valores pelas autoridades brasileiras, e mantinham parte dos recursos desviados em criptomoedas, que são mais difíceis de rastrear.
Já no Rio de Janeiro, a investigação aponta que o chefe era Jader Henrique Areas de Almeida, que coordenava as ações da organização. Ele confirmava as ações, definia a data dos golpes e distribuía os dados das vítimas para o grupo.
Enzo Grillo Filho é apontado pela PF como o operador financeiro da organização. Era o testa de ferro de Jader e fazia o dinheiro da quadrilha circular entre o Rio e São Paulo.
Vazamento do documento sigiloso
A partir da análise de celulares dos integrantes da quadrilha, a Polícia Federal descobriu que os criminosos também tinham acesso a um documento sigiloso: a íntegra da decisão judicial que autorizava a operação contra a quadrilha.
O documento é protegido por segredo de justiça, portanto apenas juízes, investigadores e servidores da Justiça Federal podem ter acesso.
O chefe da quadrilha chegou a apagar a mensagem com o documento, mas esqueceu que uma cópia no bloco de notas do próprio celular.
A Polícia Federal encontrou uma conversa em que ele encaminha o documento para um dos comparsas. O criminoso responde: "Que zica, hein... Blindar o patrimônio".
Depois da descoberta, a investigação mudou de rumo. O objetivo era entender como uma decisão que deveria estar protegida pela Justiça Federal foi parar no celular do chefe da quadrilha.
Como o documento chegou à quadrilha
A Polícia Federal passou a refazer o caminho percorrido por esse documento e descobriu que o primeiro acesso à decisão foi feito por um servidor da Justiça Federal: Jackson Cozendey.
Os investigadores afirmam que ele não tinha nenhum motivo funcional para consultar aquele processo e o apontam como o principal responsável por repassar informações sigilosas à quadrilha, em troca de pagamentos.
Em novas consultas realizadas, os registros indicam que a conexão de internet que ele usou estava instalada no escritório de advocacia onde trabalha a esposa dele, Gabrielle Cozendey.
A advogada declarou renda mensal de R$ 5.200, mas a PF aferiu que ela movimentou R$ 1,74 milhão em seis meses.
A defesa do servidor da Justiça Federal Jackson Cozendey e de Gabrielle Cozendey afirma que eles não possuem qualquer vinculação com os fatos apurados no referido processo.
A Polícia Federal afirma que houve uma atuação coordenada de três servidores para fazer a decisão sair de dentro da Justiça.
Em outro áudio encontrado pela Polícia Federal, Jader passa a falar sobre a possibilidade de executar o delegado que seria responsável pela investigação, plano que não levou adiante.
"É um delegadozinho novo lá que tá botando os inquéritos tudo pra fora... O cara é xerife até um certo ponto. O dinheiro da pessoa, a pessoa segura aqui, segura ali, né, segura a delegacia, bumba. Manda matar. Faz essa bagunça, vocês sabem. Acabou essa p(*)", diz Jader.
As defesas do casal Matheus Casado e Isabely Alves de Sousa, assim como a de Jader Almeida, não responderam o contato. O Fantástico também não conseguiu falar com os advogados de Enzo Grillo Filho.
A Polícia Federal e o Ministério Público Federal não quiseram gravar entrevista.
O Fantástico apurou que a PF e o MPF estão pedindo à Justiça Federal novos mandados de busca e apreensão para serem cumpridos dentro da própria Justiça Federal.
O Fantástico procurou a Justiça Federal, mas o TRF não se pronunciou sobre a investigação.
Quadrilha que desviou R$ 45 milhões da Caixa teve acesso antecipado a documento sigiloso da Justiça
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