Quando o rio avisa: o desafio de antecipar os impactos da vazante no Amazonas
13/08/2026
(Foto: Reprodução) Período da seca costuma afetar a logística do transporte de produtos feitos na Zona Franca de Manaus.
Alexandro Pereira/Rede Amazônica
Dizer que a vazante exige planejamento não é novidade no Amazonas. O assunto reaparece todos os anos, especialmente depois das secas severas de 2023 e 2024, que interromperam rotas, isolaram comunidades, elevaram custos e afetaram o abastecimento e a produção industrial.
A questão mais importante, portanto, não é descobrir que os rios descem. É compreender como uma situação conhecida, monitorada e, em alguma medida, previsível pode ser enfrentada com mais coordenação, reduzindo incertezas sobre a logística regional e seus efeitos sobre a economia e a população.
O rio ainda está em condição normal, mas o alerta já foi dado
📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp
Antes mesmo de a vazante provocar uma restrição crítica à navegação, quatro grandes armadores divulgaram comunicados sobre possíveis sobretaxas para cargas com origem ou destino em Manaus. Maersk, Mediterranean Shipping Company (MSC), CMA CGM e Hapag-Lloyd apresentaram valores, critérios e datas de referência diferentes para setembro e outubro.
Os comunicados não significam que as tarifas já estejam sendo efetivamente cobradas. Eles informam valores e datas futuras, relacionados às projeções de redução da navegabilidade e sujeitos às condições apresentadas pelas empresas e às regras estabelecidas pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).
No caso da Maersk, a companhia afirma que sua comunicação tem caráter de planejamento e informação e que a sobretaxa somente será aplicada caso as restrições previstas se materializem e produzam impactos operacionais que exijam medidas extraordinárias. A empresa informou o valor de US$ 1.228 por contêiner seco, com datas de referência diferentes conforme a origem das cargas.
A MSC comunicou uma Low Water Surcharge (LWS) de US$ 1.400 por contêiner seco e US$ 1.900 por contêiner refrigerado para embarques destinados a Manaus, com início escalonado previsto a partir de setembro, conforme a origem das cargas.
A CMA CGM informou uma LWS de US$ 753 por TEU, - unidade equivalente a um contêiner de 20 pés -, com aplicação prevista a partir de setembro para cargas de mercados internacionais destinadas a Manaus e de outubro para embarques da capital amazonense ao exterior. A companhia informou que continuará acompanhando as condições do rio.
A Hapag-Lloyd, por sua vez, comunicou uma sobretaxa de US$ 1.350 por contêiner, aplicável a todos os tipos de equipamentos com data tarifária a partir de 12 de setembro. A empresa também informou que poderá ajustar o início da aplicação caso o período crítico da vazante seja postergado.
Diante dos três primeiros anúncios, a Associação Comercial do Amazonas (ACA) informou ter apresentado duas petições à Antaq: a primeira, em 4 de agosto, relacionada ao comunicado da Maersk; e a segunda, em 10 de agosto, após os avisos da MSC e da CMA CGM. A entidade solicitou que a agência examine os comunicados e fiscalize o cumprimento dos critérios estabelecidos para uma eventual cobrança. O anúncio da Hapag-Lloyd foi divulgado posteriormente e passou a integrar o cenário acompanhado pelo setor produtivo.
A discussão possui um antecedente importante. Em 2025, a Antaq concedeu medida cautelar relacionada à cobrança da chamada taxa da seca nas operações de transporte marítimo de contêineres com origem ou destino em Manaus. A decisão, posteriormente referendada pelo Acórdão nº 733/2025, estabeleceu para os ciclos hidrológicos de 2025 e 2026 o parâmetro de 17,7 metros no rio Negro.
Em recomendação expedida em março de 2026, o Ministério Público Federal (MPF) orientou que uma eventual cobrança observasse o parâmetro hidrológico definido pela Antaq. Em níveis superiores a 17,7 metros, possíveis custos extraordinários deveriam ser documentados e submetidos à análise da agência. O documento também menciona comunicação prévia aos usuários, identificação do fato gerador, base de cálculo, serviços abrangidos e período de aplicação.
Esse histórico não impede que as companhias planejem suas operações e comuniquem antecipadamente aos clientes os riscos projetados. Ao mesmo tempo, mostra que a eventual aplicação das sobretaxas envolve critérios regulatórios e acompanhamento institucional.
Os anúncios indicam que o risco hidrológico já entrou no planejamento das empresas de navegação. A manifestação da ACA, por sua vez, demonstra a preocupação do setor produtivo com os efeitos desses custos sobre a indústria, o comércio e o abastecimento.
O cenário hidrológico e climático
No boletim divulgado em 12 de agosto, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) informou que a Bacia do Rio Amazonas registrava chuvas abaixo da média, o que intensificava o processo de vazante. Apesar do recuo, a maioria das estações monitoradas permanecia dentro da faixa de normalidade para o período. A principal exceção era o rio Branco, em Roraima, com níveis muito baixos para essa época do ano.
Em Manaus, o rio Negro marcou 26,55 metros na medição de 11 de agosto utilizada pelo SGB, após redução de 52 centímetros em uma semana. Mesmo com a descida, a cota permanecia dentro da faixa esperada para o período. Na leitura diária do Porto de Manaus de 13 de agosto, o nível chegou a 26,41 metros, oito centímetros abaixo do dia anterior.
Nesta data portanto, o nível do rio Negro ainda está distante do parâmetro hidrológico de 17,7 metros considerado pela Antaq para os ciclos de 2025 e 2026.
Os dados não afastam a possibilidade de dificuldades nos próximos meses, mas indicam que os comunicados dos armadores têm caráter preventivo e se apoiam em projeções de futuras restrições à navegação, não em uma condição crítica já instalada em Manaus.
O El Niño permanece como outro fator de atenção. Na atualização divulgada em 13 de agosto, o Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) informou que o fenômeno está se fortalecendo e apresenta probabilidade superior a 90% de alcançar intensidade muito forte durante o outono e o inverno de 2026-2027 no Hemisfério Norte.
Para o trimestre entre outubro e dezembro de 2026, o órgão estimou em 69% a probabilidade de o evento alcançar uma intensidade superior à dos episódios anteriores registrados desde 1950. A própria NOAA ressalta, entretanto, que a maior intensidade aumenta a possibilidade de impactos associados ao El Niño, mas não garante que eles ocorrerão da mesma forma em todas as regiões.
Na Amazônia, episódios de El Niño costumam elevar o risco de redução das chuvas em determinadas áreas. Seus efeitos, porém, não são uniformes nem podem ser tratados como uma consequência automática.
O boletim hidrológico do SGB identificou déficit de precipitação em diferentes partes da Bacia Amazônica. Embora a maior parte das estações ainda apresentasse níveis dentro da normalidade, os sinais justificam monitoramento permanente e planejamento antecipado.
Uma previsão climática não funciona como uma sentença. A intensidade da estiagem depende da combinação das chuvas em diferentes bacias, das temperaturas dos oceanos, das condições do solo e do comportamento dos afluentes.
A resposta mais adequada está em trabalhar com projeções atualizadas, diferentes níveis de alerta e providências previamente definidas para cada cenário.
A região não começa do zero
É importante reconhecer algumas iniciativas de prevenção que já existem. O Amazonas conta com monitoramento hidrológico realizado pelo SGB e pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), além do acompanhamento das defesas civis, das autoridades marítimas e de instituições ligadas à navegação.
Uma das primeiras mobilizações do setor empresarial em 2026 ocorreu em abril. A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Amazonas (Fecomércio-AM) reuniu empresários, dirigentes sindicais e representantes da Defesa Civil para discutir os possíveis efeitos da estiagem no segundo semestre. A entidade orientou as empresas a avaliarem a antecipação de compras e estoques como forma de reduzir riscos logísticos.
No âmbito federal, existem contratos de dragagem, sinalização e monitoramento em trechos estratégicos. Em setembro de 2024, o Governo Federal assinou o contrato do Plano de Dragagem de Manutenção Aquaviária e Sinalização Náutica do rio Amazonas, no trecho de aproximadamente 200 quilômetros entre Manaus e Itacoatiara. O investimento previsto é de R$ 92,8 milhões, em uma contratação com duração de cinco anos.
Também foram previstas intervenções em trechos do rio Solimões, entre Coari e Codajás, Benjamin Constant e Tabatinga, e Benjamin Constant e São Paulo de Olivença. O conjunto de ações anunciado para os rios Amazonas e Solimões foi estimado em cerca de R$ 500 milhões ao longo de cinco anos.
A dragagem não ocorre indistintamente em toda a extensão dos rios. As intervenções são direcionadas aos pontos críticos identificados por levantamentos técnicos, o que reforça a importância da atualização permanente das informações sobre profundidade e navegabilidade.
O Governo do Amazonas e a Defesa Civil também vêm trabalhando na preparação para a estiagem de 2026, com monitoramento, planejamento de contingência, articulação com os municípios e organização de respostas voltadas às populações que possam ser afetadas.
A Prefeitura de Manaus iniciou, em julho, as ações do Plano Operacional de Enfrentamento à Estiagem 2026. O documento estabelece diretrizes para monitoramento contínuo, emissão de alertas, realização de vistorias técnicas, planejamento logístico e atuação integrada dos órgãos municipais.
As empresas, por sua vez, podem antecipar estoques, reorganizar embarques, ajustar a quantidade de carga transportada, utilizar terminais alternativos e avaliar operações de transbordo. Essas medidas são importantes, mas ainda estão distribuídas entre diferentes instituições, contratos, sistemas e calendários.
O desafio não é partir do zero. É conectar o que já existe para construir uma estratégia permanente de soluções integradas.
Da informação à decisão
O Amazonas já experimentou diferentes respostas aos efeitos da vazante. Nas secas de 2023 e 2024, empresas anteciparam estoques e reorganizaram suas operações logísticas.
Em 2024, operações de transbordo em estruturas provisórias na região de Itacoatiara estiveram entre as alternativas autorizadas para reduzir os efeitos das restrições de navegabilidade durante a vazante.
Intervenções de dragagem também foram contratadas para trechos considerados críticos, enquanto os governos mobilizaram medidas voltadas ao abastecimento e ao atendimento das populações afetadas.
Essas experiências mostram que existem alternativas capazes de reduzir parte dos impactos. O próximo passo é fazer com que deixem de funcionar principalmente como respostas acionadas diante do agravamento da estiagem e passem a integrar um protocolo permanente de gestão logística da vazante.
Esse sistema poderia reunir dados hidrológicos, previsões climáticas, batimetria - medição da profundidade dos rios -, calado das embarcações, capacidade dos portos, demanda industrial e necessidades de abastecimento dos municípios.
Não seria necessário começar do zero, mas integrar informações e estruturas que atualmente estão distribuídas entre diferentes instituições e empresas.
Os dados poderiam alimentar cenários operacionais atualizados, com critérios públicos e providências correspondentes a cada nível de risco. Assim, quando determinado trecho do rio se aproximasse de uma cota previamente definida, empresas e órgãos responsáveis saberiam quais medidas avaliar.
Em um primeiro nível, poderiam ser reforçados os estoques essenciais e ajustados os calendários de embarque. Em uma etapa seguinte, seriam avaliadas soluções já experimentadas, como operações de transbordo e terminais alternativos, além de intervenções de manutenção previamente estudadas, contratadas e licenciadas. Em um cenário mais crítico, seriam priorizados medicamentos, oxigênio, combustíveis, alimentos e o atendimento às comunidades isoladas.
Isso não eliminaria os efeitos da seca nem evitaria todos os custos adicionais. Mas permitiria transformar experiências acumuladas em uma resposta mais coordenada, reduzindo a distância entre o alerta técnico e a decisão prática e oferecendo maior previsibilidade à indústria, ao comércio, aos transportadores e à população.
Tecnologia existe, mas precisa estar alinhada à infraestrutura
Satélites já permitem acompanhar alterações na superfície dos rios, inclusive com tecnologias de radar capazes de produzir informações mesmo sob cobertura de nuvens. Sensores podem transmitir níveis e condições ambientais em tempo real. Modelos computacionais conseguem comparar dados atuais com séries históricas e projetar diferentes cenários hidrológicos.
Sistemas digitais também podem reunir a localização das embarcações, a profundidade das rotas, a capacidade dos terminais e a demanda pelo transporte de cargas. Com essas informações, seria possível antecipar restrições de calado, planejar trajetos e calcular quando uma operação de transbordo poderia tornar-se necessária.
Outro caminho seria desenvolver uma representação digital dos principais corredores hidroviários, atualizada continuamente. Esse ambiente permitiria simular como a redução do nível dos rios afetaria embarcações, portos, estoques, custos e prazos antes que o problema chegasse às linhas de produção ou às prateleiras.
A tecnologia, contudo, não substitui dragagem, sinalização, portos adequados, embarcações adaptadas ou segurança regulatória. Também não resolve sozinha a fragmentação entre órgãos públicos e agentes privados. Seu papel é produzir informações e cenários capazes de melhorar a qualidade e a velocidade das decisões.
Para funcionar, a inovação precisa estar associada a contratos preparados com antecedência, licenciamento ambiental, fontes de financiamento, responsabilidades definidas e indicadores que permitam avaliar os resultados.
Uma agenda de inovação para o Amazonas
Há espaço para que universidades, centros de pesquisa, startups, empresas de navegação, estaleiros e indústrias do Polo Industrial de Manaus (PIM) participem desse desafio.
O conhecimento local pode contribuir para o desenvolvimento de sensores, programas de previsão, sistemas de comunicação, embarcações de menor calado, terminais flutuantes e equipamentos adaptados às condições amazônicas.
Recursos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) mobilizados pelas empresas do PIM também poderiam apoiar soluções logísticas de interesse regional, desde que enquadradas nas regras aplicáveis e desenvolvidas em articulação com instituições qualificadas.
Essa agenda tem potencial econômico. Tecnologias desenvolvidas para lidar com a variação dos rios no Amazonas podem ser aplicadas em outras regiões que enfrentam secas, enchentes e alterações nas condições de navegação.
A Amazônia Legal pode tornar-se referência no desenvolvimento de soluções logísticas para ambientes complexos. Não se trata de vencer os ciclos naturais, mas de estar mais preparado para conviver com eles.
Prevenir custa, mas reagir pode custar mais
Obras e sistemas de prevenção exigem recursos. O mesmo acontece com a redução da capacidade das embarcações, as operações adicionais de transporte, a formação de estoques emergenciais e os custos extraordinários que podem surgir quando as restrições à navegação efetivamente se materializam.
A diferença é que o investimento preventivo pode deixar infraestrutura, tecnologia e conhecimento para os anos seguintes. Já as medidas emergenciais, embora necessárias, geralmente respondem a uma situação específica e precisam ser novamente mobilizadas quando a vazante retorna.
O debate não deve ser conduzido como se houvesse uma escolha simples entre controlar a natureza e aceitar passivamente seus efeitos. Os rios amazônicos continuarão subindo e descendo. A tarefa possível é reduzir a vulnerabilidade das atividades econômicas e das populações que dependem deles.
Os comunicados dos quatro armadores funcionam como um sinal de atenção. Eles mostram que o risco hidrológico já entrou no planejamento das empresas de navegação. Ao mesmo tempo, as manifestações da ACA e os critérios estabelecidos pela Antaq demonstram a importância de transparência, acompanhamento regulatório e diálogo entre os agentes envolvidos.
O próximo passo é fazer com que a mesma capacidade de antecipação seja convertida em planejamento público, infraestrutura, coordenação e inovação.
O rio avisa. O desafio do Amazonas é fazer com que a informação chegue às decisões antes que a água baixa se transforme, mais uma vez, em emergência.
Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.