Wagner Ferreira: a trajetória do cria de Belford Roxo que trabalha desde os 14 na Ceasa-RJ e foi de carregador a influencer

  • 23/06/2026
(Foto: Reprodução)
Wagner Ceasa, cria de Belford Roxo, vai de carregador a influencer A família do Wagner Ferreira Jr., conhecido como Wagner Ceasa, teve três gerações de vendedores na Ceasa, em Irajá, Zona Norte do Rio, até que a vida dele mudou de rota e encontrou as redes sociais. Atualmente, Wagner acumula mais de 1,2 milhões de seguidores entre Tiktok e Instagram. Wagner começou a trabalhar no local ainda criança, ajudando o pai, e depois montou o próprio ponto de vendas, onde ele era comerciante, carregador e atendente ao mesmo tempo para economizar todo dinheiro possível em uma fase financeira difícil. Wagner Ferreira Jr. é mais um entrevistado da série Influência de Cria, que está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do "Influência de Cria" para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop. Cria do Morro da Caixa d’Água, em Belford Roxo, Wagner lembra com carinho da infância em uma época em que a violência ainda não dominava a região. Aos 10 anos, começou a ajudar o pai no trabalho. Aos poucos, a experiência se transformou em responsabilidade. "Meu pai me mostrou desde cedo que a vida não é um morango. Foi aqui que aprendi o valor do trabalho", conta. Wagner Ferreira Jr. Arte g1 Ao longo da vida, Wagner acumulou profissões. Foi vendedor, carregador, barbeiro, professor de música, instrutor de kickboxing, piloto e instrutor de parapente. A necessidade de criar oportunidades o levou a buscar diferentes caminhos para conquistar independência financeira. A virada aconteceu em 2022. Em um momento de dificuldades financeiras, com o carro quebrado e vendas em baixa, ele decidiu gravar um vídeo mostrando quanto ganhava um carregador na Ceasa. O conteúdo viralizou. "Não deu um mês e eu já estava monetizando nas redes sociais. No dia seguinte ao vídeo, já tinha gente querendo tirar foto comigo aqui na Ceasa", lembra. 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia Com toda a trajetória social e os valores aprendidos com o pai, Wagner afirma que se recusa a divulgar jogos de azar. "Não importa o valor. Se não está dentro dos meus princípios, eu não faço. As pessoas confiam em mim e eu não vou incentivar ninguém a perder dinheiro." Leia a entrevista completa: Como foi a sua infância? "A minha infância foi uma maravilha. Eu morei lá no Morro da Caixa d'Água, Belford Roxo. Eu tinha a liberdade de brincar e até tarde, que antigamente não tinha essa violência que tem hoje em dia. E na Ceasa eu trabalhava, mas também estudava, então eu vinha para cá mais no meu tempo livre, nas férias, final de semana. Desde cedo meu pai me mostrou que a vida não é um morango e me empurrou para trabalhar junto com ele. E aí eu vi como ele comprava o PlayStation 2, comprava bicicleta para mim. Foi bom para me ensinar a ser homem de verdade. Wagner Ferreira Jr. e família no casamento dele Reprodução Eu comecei a frequentar com dez anos, ajudando meu pai. É um trabalho, mas não era um trabalho firme, igual quando eu comecei com os 14. Mas aí foi gradativamente ficando chapa mais quente, a habilidade foi aumentando. Com grandes poderes vem grandes responsabilidades, né?" Como você conciliava os estudos? "Eu vinha trabalhar no final de semana. Às vezes eu vinha mais cedo e estudava tarde. Nas férias eu vinha direto que eu queria um dinheirinho porque eu tinha uma namoradinha, então tinha que ganhar um dinheirinho para sair com ela no final de semana, beijar na boca, né? Mas dava para estudar." Como você lidava com a violência urbana? "Quando a violência no Morro da Caixa d’Água aumentou, para mim foi uma fase muito ruim na minha vida, sabe? Porque um lugar que tu cresceu virou um lugar que você se sente refém. Wagner Ferreira Jr. Reprodução Por exemplo, eu quero ir ao mercado comprar um biscoito e não posso porque tem o risco de sair, tomar um tiro porque está em guerra e ficou em guerra um período muito grande. Chegando do Ceasa, em casa, fuzil na minha cara, mesmo sendo morador, cria, como a gente fala. Vi vários amigos meus crescer junto comigo e ir dessa para melhor. Infelizmente alguns não tinham nada a ver, enquanto outros já eram envolvidos. É triste essa realidade. Tem uma história engraçada que um garoto foi jogar futebol e no sangue quente bateu em um menino. Uma semana depois passou na esquina e o garoto estava de fuzil. Eu vi muita gente crescer do meu lado e entrar para a vida do crime. É uma realidade muito comum nas comunidades do Rio de Janeiro." Você tem mais profissões? "Sim, eu sou professor, eu sou piloto de parapente, instrutor de kickboxing, barbeiro, professor de guitarra de violão. Também fui vendedor aqui no Ceasa. Já fui carregador de carrinho, já consertei telefone também e várias outras coisas, sem cabeça parada. A gente não tem muitas oportunidades na vida, então a gente tem que criar, né? A gente que não nasceu em família rica, tem que se virar nos 30, como já diz. Então tive que me virar pra conseguir o dinheiro e chegar onde eu quero chegar, para poder dar aquele Corolla pro meu pai." Wagner Ferreira Jr. Reprodução Como você começou a criar conteúdo? "Então eu comecei a gravar aqui na Ceasa no momento em que eu já não tinha mais saída e eu prestei concurso para Emerge na época e eu estava tentando várias coisas, mas nada estava dando certo e eu me sentia sem caminho. Meu carro tinha quebrado, não tinha nem dinheiro pra arrumar meu carro, que estava num período fraco de vendas. E aí eu falei com Deus, eu falei:‘Senhor, me dá uma luz, me dá uma oportunidade’. Levantei a mão assim pro céu e pedi. Aí na outra semana eu consegui comprar um telefone com o dinheiro que meu pai me ajudou e gravei um vídeo. O primeiro vídeo que eu fiz aqui na Ceasa em 2022 foi um estouro na internet. O tema era quanto que dava para ganhar como carregador na Ceasa e aí viralizou. No outro dia tinha gente querendo tirar foto comigo na Ceasa. E então eu comecei e nunca mais parei. Não deu um mês eu já estava monetizando no Tiktok e ganhando dinheiro, um salário legal. O segredo para você fazer sucesso na internet é você não desistir. Às vezes você faz um vídeo, não deu retorno e quer parar. O segredo é a constância e a persistência. O mundo não é um grande arco-íris. Wagner Ferreira Jr. Reprodução O erro das pessoas é que elas são muito imediatistas. Quer postar um vídeo e quer resultado agora? Não é assim que funciona. A vida não é assim. Quando você entra no emprego, primeiro você tem que trabalhar para depois receber. Então primeiro tem que trabalhar, postar vídeos e colher os frutos, certo?" Como é a sua relação com Belford Roxo? "Cara, quando eu vou lá na comunidade em Belford Roxo, o pessoal se amarra em mim, porque quando eu saí de lá há 5 anos, o pessoal tinha uma visão de mim e quando eu vou lá o pessoal fica tipo ‘caraca, olha ele’. Pessoal, eu não me considero famoso, mas as pessoas sim, pedem para tirar foto, acham que eu mudei, mas eu não mudei. Gente, eu continuo sendo o mesmo cara. Então eu acho que isso da hora, sabe? O pessoal vê que eu não mudei nada, nem um pingo ali, só mudou que eu tô tendo uma visibilidade a mais. Eu saí de lá por conta da violência mesmo, eu chegava do trabalho com fuzil na cara por causa da guerra. Você sai e não sabe se volta vivo e depois que morre já era. Eu vi um cara morrer a um metro de mim, tomou um tiro de fuzil e caiu duro. É uma realidade que, hoje em dia, se tu for contar para as pessoas, parece que é um filme, sabe? Conta pra uma pessoa que morou na Barra, morou nos lugares mais nobres assim e ela não vai acreditar. Isso aqui só vem em filme, em filme, no cinema e até meio traumatizante assim." Qual conselho você daria para quem está assistindo? "É só persistir nos seus sonhos. É possível, confie em você mesmo, sabe? Eu acho que é isso. Você tem que confiar em você mesmo, no seu potencial. Porque se você deixar outra pessoa acreditar em você, você nunca vai chegar em lugar nenhum na vida. Então você tem que ser o seu fã. Eu sou o meu fã número um. Desde o momento que você é um cara correto, dentro dos seus princípios e valores, todo mundo tá vendo. Às vezes você acha que ninguém está te olhando, mas tem cara que está te vendo. O mais importante é que aquele cara lá de cima tá te olhando sempre. Eu vejo a realidade do meu pai. Cara, meu pai não tinha oportunidade que eu tive hoje, né? Meu pai tinha um sonho de ser jogador de futebol. Hoje em dia, com telefone, pega um vídeo ali, joga na internet, o cara já viraliza. Se o cara realmente for bom e consegue chegar onde ele quer chegar. Está muito mais fácil. Hoje em dia a gente tem várias ferramentas que antigamente o pessoal não tinha." Como você lida com a divulgação de jogos de azar? "Então, essa semana eu recebi uma proposta muito boa para divulgar esses jogos e aí até o cara falou para divulgar um aplicativo e tal e falou o valor. Eu pensei: ‘Opa! Valor bom, hein? Vou topar’. E quando ele mandou o briefing para ver o que era, eu entrei no link e falei ‘Pô, isso aqui é tigrinho’. Wagner Ferreira Jr. Reprodução Aí nem respondi ao cara. Não importa quanto o cara vai me pagar, que não tá dentro dos meus princípios e valores, então isso não me importa, sabe? Sou um cara muito inteiro no que eu faço. Eu prezo muito pelas pessoas que confiam em mim, que me acompanham no meu dia a dia, que acreditam no meu trabalho. Não vou fazer a pessoa perder dinheiro ali, entendeu? Mesmo sendo uma proposta na faixa de 50 mil." Qual foi o legado que seu pai deixou em você? Está deixando? "Cara, meu pai é tudo pra mim. Tem gente que admira Cristiano Ronaldo, Messi, Mc... O cara que eu mais admiro na vida é o meu pai. Meu pai me ensinou os princípios, os valores da vida. Estava comigo nos momentos mais difíceis da minha vida, quando achei que eu ia morrer, que eu fiz uma cirurgia, junto com a minha mãe, que também é uma pessoa muito importante na minha vida. Só penso em retribuir o que ele fez por mim. Isso não é minha obrigação, mas para mostrar gratidão. Ele me trouxe para conhecer a Ceasa, já são três gerações aqui, meu avô, meu pai e eu em meio a adversidade. Eu tenho ele como referência e quero dar uma vida muito melhor para o meu pai. Ele tem uma vida boa, mas a gente tem que honrar pai e mãe, né? Eu quero fazer isso, então eu luto por isso."

FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/06/23/wagner-ferreira-a-trajetoria-do-cria-de-belford-roxo-que-trabalha-desde-os-14-na-ceasa-rj-e-foi-de-carregador-a-influencer.ghtml


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